Como a neurociência pode aprimorar o processo de aprendizagem?

Roberto Lent, neurociencia e educaçao

Imagine uma aula de matemática com música, dança ou teatro. E se essa hipótese saísse do imaginário e fosse realidade? E se diversos estímulos ao nosso cérebro fossem utilizados a favor da aprendizagem? É assim que o professor e chefe do laboratório de Neuroplasticidade do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, Roberto Lent, vê a educação do futuro. Para ele, essa nova metodologia  não precisa necessariamente acontecer em um futuro distante e pode ser praticada desde já. Lent possui uma série de trabalhos científicos sobre desenvolvimento e evolução do cérebro, bem como livros de divulgação da neurociência para adultos e crianças.

Como a neurociência pode aprimorar o processo de aprendizagem? Qual a importância desse diálogo entre ciência e educação?

A neurociência revela mecanismos e processos cerebrais envolvidos na aprendizagem, e pode propor sugestões para facilitar ou acelerar a aprendizagem. Caberá aos professores e gestores avaliarem se as sugestões poderão ser acatadas ou não, e de que modo.

Em um artigo publicado pelo Ciência Hoje Online, o senhor destaca que o treinamento focalizado em música, dança ou teatro poderia fortalecer o sistema atencional do cérebro facilitando o processo de aprendizagem. De que forma isso ocorre?

Trata-se de um fenômeno chamado plasticidade transmodal: aprender a focar a atenção com a música e outras artes, que são atividades de alta força motivacional, pode se transferir à matemática, que por ser abstrata tem baixo poder motivacional para as crianças.

Outros estímulos podem contribuir para o ensino e conhecimento? Quais?

Um bom período de sono durante a noite e a soneca depois do almoço são reconhecidos como elementos positivos para a consolidação da memória. O exercício físico é outro elemento positivo, pois além de possibilitar também aprender a focar a atenção, resulta em maior neurogênese (geração de novos neurônios) no hipocampo, uma parte do cérebro relacionada à memória.

Como estas perspectivas podem ser aplicadas no dia a dia dos alunos e professores?

Essa é uma questão não resolvida, que depende de avaliação pelos professores e gestores, pois implica mudanças na grade curricular, no peso relativo atribuído às diferentes disciplinas. Os neurocientistas não chegam a esse plano de atuação.

Como o senhor vê a educação do futuro a partir destes resultados? Este processo já pode ser implantado nas instituições de ensino?

Os dados e evidências que a neurociência tem produzido já estão disponíveis para a correspondente tradução (translação) à prática educacional. Sua aplicação pode ser imediata ou deixada para mais tarde: essa é uma decisão dos gestores e educadores. A pesquisa translacional em Ciência para Educação (CpE) é como na Saúde: os pesquisadores desenvolvem conceitos e produtos para a Saúde, mas a sua aplicação prática depende dos gestores.

Quais desafios o senhor percebe nessa implantação?

Será fundamental estabelecer uma base científica para a educação, fomentar a pesquisa translacional em CpE, como já se faz há décadas em saúde, e chamar os cientistas – não somente os neurocientistas – a dirigir as suas pesquisas a problemas da Educação. Esse é um desafio de política científica, e de convencimento da própria comunidade científica que se trata de um caminho essencial para o desenvolvimento da educação brasileira.

 

Fonte: Fiocruz

 

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