Se comeres do Fruto do Conhecimento certamente morrerás

Há um tempo atrás partilhei uma frase da Melanie Klein, sem legenda, porque para mim era claro. Pois tive algumas críticas de pessoas que interpretaram aquilo da forma bíblica. Então vamos esclarecer:

Quem foi Klein: uma psicanalista austríaca pós-freudiana, que estudou a relação mãe-bebé e a análise infantil. Uma das valentes mulheres que desafiaram o mundo machista do intelecto e da medicina e abriu as portas para o tratamento de pacientes psicóticos.

Paraíso: Podemos entender como paraíso qualquer zona de conforto, qualquer tipo de comodismo, qualquer situação que nos impeça de lutar por aquilo que realmente somos e/ou queremos. É um lugar de falsa segurança, falsas certezas, ilusões, idealizações.

No paraíso mítico do Antigo Testamento, Adão e Eva eram “felizes” porque eram ignorantes e obedientes. Viviam de acordo com regras bem definidas. Quando começaram a questionar, pensar e buscar novos caminhos, perceberam-se nus, desprotegidos.

É o mesmo que acontece com filósofos, escritores, intelectuais ou qualquer pessoa que ama literatura. Perdemos nossas certezas. Temos mais perguntas a fazer do que respostas a dar.

Através da dialética, somos capazes de pensar as próprias emoções, questionar os próprios pensamentos, isto altera completamente a forma do indivíduo estar na sociedade e no mundo. É esta noção de conhecimento que Klein deixa como legado: Libertação através do pensar, pois gera amadurecimento.

Klein escreveu sobre fantasias inconscientes, que constituem núcleos geradores de significados para a vida psíquica, e moldam (às vezes deformam) as demais experiências a elas associadas.  Fantasia inconsciente é, antes de tudo, um modo ativo de pensar inconsciente que adquire certa estabilidade, gerando significados que vão se agrupar em torno de um núcleo atribuidor de significados. É o que a TCC chama de Crenças (centrais ou periféricas). Resumindo: São estas fantasias que aparecem em nosso comportamento, nas nossas ações ou reações. Tem a ver com nossa (in)capacidade de simbolização e criatividade.

Não sofremos apenas por repressão e traumas. Para Klein, e minha vivência clínica a confirma, há pessoas que sofrem por falta de experiencias emocionais, o que impede seu desenvolvimento emocional/intelectual. O isolamento pode causar danos sérios ao indivíduo em vários âmbitos da vida.

Por exemplo, no trauma religioso, tema com o qual trabalho, áreas do desenvolvimento do cérebro são reprimidas por falta de estimulação, especialmente pensamento crítico e criatividade. Frases como “Não deves confiar em teu próprio conhecimento” ou “um servo deve obediência ao seu senhor” são internalizadas e geram “impotência aprendida”, as pessoas sentem-se incapazes de tomar decisões.

Há uma tentativa de transformar os membros da igreja em família consanguínea. Havendo um culto/reunião na igreja e um aniversário de família, a prioridade deve ser a igreja. Como as atividades nas igrejas são constantes, principalmente em datas festivas como natal, ano novo, dia das mães etc, o convívio com a família vai extinguindo-se. Há igrejas mais restritivas ainda, que não permitem comemorações de aniversários ou natal/ano novo. Daí a razão para chamarem uns aos outros “irmãos” (Maraldi, 2014). Os membros que já não convivem com a família, acabam afastando os amigos, pois só falam sobre igreja. Amizades com outras pessoas são evitadas, pois não podem aceitar convites para bares, festas, shows. Ou seja, os fiéis ficam em uma redoma, só ouvem e falam do mesmo assunto. Os jovens não aproveitam espaços públicos das cidades, o contato com amigos dá-se em ambientes reclusos (ou próprias casas). Quando saem vão ao shopping ou lancham depois dos cultos, perto da igreja (Magalhães, 2015).

Não lhes é estimulado o interesse por cinema, teatro, artes em geral (em várias igrejas ainda considera-se pecado). Há um empobrecimento intelectual que os estigmatiza e rotula. A rivalidade entre igrejas é acentuada, não devem visitar outros locais – forma de manter o membro sob controle. O ostracismo é ensinado como motivo de orgulho: “Não pertencemos a este mundo”. Isso gera déficits cognitivos e incapacidade para autogerir-se: Como as decisões são sempre delegadas ao Espírito Santo, por intermédio do líder, o indivíduo internaliza que não é capaz de tomar uma decisão assertiva, e torna-se inseguro. Não confia em seus pensamentos e julgamento crítico. Falta apreciação da função simbólica, muitos tem dificuldade para entender brincadeiras, palestras ou interpretar textos (Winell, 2013).

Não há incentivo para educação. Poucos chegam à universidade e raros cursam uma pós-graduação. Há uma lógica pitoresca aqui: estudar significa ter contato com pessoas de outras crenças, que frequentam outros lugares, que têm hábitos diferentes, portanto serão muitas oportunidades para o fiel “perder o foco da fé” – o cerceamento é a solução (Magalhães, 2015). É a fuga do “inimigo”. Maraldi (2014) aponta baixa adesão de evangélicos por falta de compreensão do objetivo da pesquisa e dificuldade em preencher o questionário, devido à baixa escolaridade. Outro dado importante é o aspecto persecutório nos fiéis: Pensavam que a pesquisa em algum momento seria usada contra eles.

Conforme Shaull & Cesar (2000), o movimento é o melhor sucedido em recrutar membros da classe pobre. Estudar além do “necessário” deixaria pouco tempo para atividades religiosas (cultos, orações, estudo da bíblia, ensaios de louvor, reuniões para alinhar perfis) e para o “evangelismo” (ato de ir à rua para converter outras pessoas). Não há forma de conhecimento superior ao “Conhecimento Revelado”, e se este é atribuído a uma fonte transcendente, então todas as qualificações humanas podem ser ignoradas (Adam, 2009; Winell, 2013).

Quando alguém deste mundo bebe de outra fonte, ousa ler, estudar, ter uma vida fora do “padrão” é expulso do grupo, se não formalmente, fazem um processo paulatino de afastamento, até que a pessoa esteja totalmente isolada. É o preço a pagar pelo Conhecimento. Quem tem a capacidade de pensar, desagrada a muitos. Portanto morremos, para estas pessoas que não podem seguir connosco, e morrem nossas ilusões, nossas fantasias. É preciso uma morte para haver vida, como o grão do trigo – deve morrer para germinar.

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