Autor de um excelente tratado sobre depressão, o escritor americano fala de sua convivência com a doença

O escritor americano Andrew Solomon foi ao inferno e voltou. Ele era um romancista de sucesso quando, aos 31 anos, se viu mergulhado numa depressão profunda. Essa experiência é minuciosamente relatada no livro O Demônio do Meio-Dia. Não se trata de um livro de memórias. O drama de Solomon é pano de fundo para um dos mais completos tratados já escritos sobre a depressão. A doença é analisada do ponto de vista químico, psicológico, filosófico, histórico, político e cultural, sem a pretensão – e nem é esse o objetivo – de ser uma obra conclusiva sobre o assunto. Solomon, que é colaborador das revistas New Yorker e New York Times Magazine, teve três recaídas, uma delas enquanto escrevia o livro.
16761019“É um sofrimento inimaginável para quem nunca passou por isso. Meu primeiro episódio de depressão ocorreu quanto eu tinha 31 anos. Comecei a me sentir cada vez mais cansado, desinteressado, desconectado da vida. Até que passei a me arrastar para realizar tarefas rotineiras. Era dificílimo, por exemplo, ir até a geladeira, escolher uma comida, colocá-la no prato e levá-la à boca com um garfo. Depois veio a ansiedade, um misto de medo constante e falta de direção. Já pratiquei skydive e posso dizer que saltar de um avião a 4.000 metros de altitude é mais fácil do que amarrar os sapatos quando se está numa crise desse tipo. Sabe aquela sensação de queda livre que se tem em sonho? Pois bem, a depressão é ter essa sensação prolongada por dias e dias. Apesar de meu problema estar controlado, ainda sofro de uma depressão latente, que chamo de depressão de fundo. Tomo remédios e faço psicanálise. Essa é a fórmula para que eu consiga funcionar.
Em geral, a depressão tem um fator desencadeante. A morte da minha mãe foi, sem dúvida, um dos fatores desencadeantes da minha depressão, especialmente por causa das circunstâncias que a cercaram. Primeiro, minha mãe recebeu o diagnóstico de câncer de ovário. Depois, submeteu-se a um longo e penoso tratamento. Por último, quando já não havia esperança, ela decidiu se matar tomando remédios. Fez isso na minha presença, na de meu pai e na de meu irmão. Antes de se matar, virou-se para mim e disse: “Não faça de minha morte o grande acontecimento da sua vida”. Todo esse processo, evidentemente, representou um grande trauma para mim. Acredito que todas as pessoas que, como eu, tiveram depressão severa podem dizer que a doença veio depois de um evento marcante – que pode ser negativo, como a perda de uma pessoa querida, ou positivo, como o nascimento de um bebê. Mas nem sempre o gatilho da primeira crise é identificável como a causa das recaídas. E isso é motivo de mais sofrimento. Para tentar minorá-lo, eu mesmo, em alguns instantes, cheguei a tentar forjar uma causa palpável para o meu estado.
Eu me expus a situações de risco, na tentativa de estabelecer aos olhos do mundo um motivo para o meu desespero. Como é impossível contrair um câncer voluntariamente, decidi pegar Aids. Durante três meses, mantive relações sexuais com estranhos que eu presumia infectados, correndo riscos cada vez maiores e mais diretos. Por sorte, apesar dos meus comportamentos destrutivos, a razão acabou prevalecendo. Quando me senti melhor, consegui enxergar o absurdo de tudo aquilo.
As taxas crescentes de depressão são uma consequência da modernidade. O ritmo frenético do dia-a-dia, o colapso da estrutura familiar e a competição acirrada têm um efeito devastador sobre as pessoas. Como esses fatores não existiam no passado, havia menos risco de vir à tona a vulnerabilidade à depressão. Mas essa vulnerabilidade sempre existiu.
Ainda estamos longe de uma droga realmente efetiva para a doença. Isso porque a depressão não é apenas uma disfunção na química cerebral. Ela diz respeito também à forma como a pessoa encara a vida e reage aos problemas do dia-a-dia. Não existe um caso de depressão igual a outro – cada experiência é muito particular. Por isso, um remédio pode funcionar para um e ser ineficiente para outro. A taxa média de eficácia dos antidepressivos hoje gira em torno de 50%. Talvez no futuro tenhamos um aprimoramento na descrição dos subtipos de depressão e, com isso, possamos determinar quais os remédios mais indicados para esse ou aquele caso.
Todas as psicoterapias têm origem na psicanálise, e mesmo quem menospreza Freud tem de reconhecer esse fato. Quem sofre de depressão e faz psicanálise tem muito a ganhar. Ela pode fazer com que o paciente entenda mais a sua história e, consequentemente, perceba as origens da sua depressão. A minha depressão me fez um homem mais gentil e mais compreensivo. Além disso, depois que se sofre um tormento desses, aprende-se a extrair prazer das pequenas coisas da vida. Não acredito que a depressão, por si só, seja construtiva ou produtiva. O que conta nesse processo é a mudança por que passa a sua personalidade. Pessoas que passam por uma experiência dessas e conseguem desenvolver um novo entendimento sobre si mesmas tornam-se mais aptas para compreender o mundo.”

Fonte: Veja

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