Estudo revela que quase metade da população portuguesa se diz psicologicamente afetada pela covid-19

Quase metade dos inquiridos — cerca de 10 mil, com uma média de idades de 31,3 anos e na sua maioria mulheres, numa amostra mais expressiva do que a dos outros estudos sobre o mesmo tema realizados até agora em Portugal — classificou o impacto psicológico da pandemia de covid-19 como “moderado a severo”. E disso não se estava à espera, observa, em entrevista ao Expresso, Sofia Brissos, psiquiatria no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, e uma das autoras do estudo.

No documento com o resumo dos resultados enviado às redações, referia-se, em concreto, o caso da China, onde a percentagem de pessoas afetadas, de “participantes que relataram um impacto psicológico moderado a severo”, era de “apenas 7,6%”. Foram comparados períodos iniciais da pandemia em ambos os países e que a diferença “poderá residir no facto de, em Portugal, quando surgiram as primeiras mortes, já haver mais informação sobre o surto e a noção de que a situação era grave e de proporções inéditas”. Na China, por outro lado, “poderá ter havido a perceção, numa fase inicial, de que se tratava de uma situação circunscrita”. E é essa também a explicação dos autores chineses, segundo os quais “umas das razões possíveis é que, na altura, o surto ainda não era considerado grave e os participantes [na China] não estavam tão bem informados”, lê-se no resumo do estudo desenvolvido em colaboração com o Centro de Investigação em Psicologia da Universidade Autónoma de Lisboa e o Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro.

“A GRANDE MAIORIA NÃO TEM UMA DOENÇA NEM PRECISA DE SER MEDIDA, MAS SERÁ NECESSÁRIO ALGUM TIPO DE INTERVENÇÃO”

À semelhança de outros dois estudos sobre saúde mental e pandemia (2020), um realizado pela Escola de Medicina da Universidade do Minho, divulgado a 14 de abril, e outro por psiquiatras do Hospital Júlio de Matos, os participantes mais velhos apresentaram níveis mais reduzidos de depressão e stress. O estudo mostra que os estudantes com mais de 18 anos são um dos grupos em que as medidas de isolamento social pode estar a ter um maior impacto, logo atrás dos desempregados.

Esse dado era, portanto, esperado, assim como o “impacto significativo” da pandemia nas pessoas com menor nível de escolaridade, nas mulheres e nos desempregados, como revelou o atual estudo. Também as pessoas “mais sintomáticas” apresentaram níveis mais elevados de depressão, ansiedade e stress, seja porque interpretaram esses sintomas como correspondentes à infeção por covid-19, seja por considerarem que corriam maior risco de contágio ou mesmo devido à existência de uma doença crónica. Ter uma doença crónica tem sido associado a mais ansiedade, depressão e stress, e a um maior impacto psicológico da covid-19.

Expresso.

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