Falar transforma uma pessoa. Simples assim!

Um dos grandes problemas da clínica contemporânea é uma “psicologização” dos pacientes. Eles já chegam dizendo: Eu tenho um trauma de infância” ou: “Eu tenho histórico de abandono”. O paciente chega com uma etiqueta. E aí você precisa desmontar isso para começar o processo analítico real. É muito comum escutar “sou depressivo”. E, na verdade, nós, profissionais, sabemos muito mais do que esse senso comum a respeito da depressão.

AA022724Tem um texto que eu gosto da Elisabeth Roudinesco (historiadora e psicanalista francesa) que explica como a lógica da nossa sociedade é depressiva, ou é – para ser mais precisa – “depressivante”. Não tem como – em uma cultura pautada pelo ideal da felicidade – não existir infelicidade. Vivemos na era do imperativo, do “be cool”, “be happy”. As pessoas têm de estar sempre se divertindo, viajando, na distração, no delírio, no bliss. Mas a própria definição do momento de êxtase é aquilo que é raro – e as pessoas transformam isso em algo necessário. Existe uma inversão muito clara. Queremos tornar o impossível possível. E nos frustramos por nos sentirmos fracassados perante esse ideal.
Então, a clínica nos mostra que existe um gap entre o que a pessoa é e o que ela acha que tem de ser; como ela acha que deveria estar se sentindo e como o outro espera que ela seja. As coisas ficam embaralhadas e o resultado é que se sofre muito. Esta é uma das razões que fazem com que as pessoas tenham mais interesse a respeito desses assuntos.

Sempre houve melancolia – isso é retratado pelos gregos. Mas uma coisa é retratar a melancolia como quadro possível, outra coisa é colocar a felicidade, o prazer e o entretenimento como obrigações contínuas. Todas as estatísticas mostram que estamos em uma epidemia de sintomas mentais em que depressão, pânico e transtornos alimentares são a ponta de lança. Como não estar doente de tristeza na era da felicidade? Como não estar doente de desemparo, de medo, de pânico quando todas as redes de amparo estão esgarçadas? O individualismo mata os elos comunitários. É um paradigma que não tem como não jogar o sujeito no desamparo. Os iguais são seus concorrentes e você tem de se destacar. Então, como é possível não ter medo? Como o pânico, a fobia, a fragilidade não vão ser os sintomas básicos de um era que só prega o ideal de força, potência e vitória? E como não ter transtorno ou distúrbios com o corpo e com a imagem que se tem de si em um universo que dita o tempo todo o corpo que você deve ter: jovem, magro e belo?

Isso é muito autoritário. Quer maior autoritarismo do que o conceito de “humanos, não envelheçam” – sobretudo mulheres? Vivemos em uma cultura que diz “tempo, não passe”. Ora, isso é impossível. Então, estamos numa luta inglória, dando murro em ponta de faca com grandes preceitos da vida.

É interessante analisar as estatísticas do momento, mas cerca de metade das relações termina em divórcio. As pessoas mais se desencontram do que se encontram, “hiperfetichizando” o que seria o amor, o casamento, o casal. Exigimos muito do outro – o mesmo tanto que exigimos de nós mesmos. Entretanto, os afetos, no meio disso, pulsam. E é justamente porque eles pulsam que a gente acaba sofrendo. O afeto não mente.

Ouço o avesso disso. A clínica é o backstage desse circo. Um exemplo: as mulheres nem podem mais ter filhos em paz. Tem que pensar qual vai ser a roupa, a foto, a lembrancinha. E o pós-parto é um momento difícil, como o período da amamentação. Aí a pessoa chora quatro meses sem parar, tem depressão pós-parto. Não se pode nem sofrer e nem envelhecer em paz.
Por que a psicanálise funciona? Porque falar transforma uma pessoa. Simples assim. Porque a fala, a linguagem e a maneira de se expressar estão ligadas ao afeto. Isso é uma das bases do que Freud cifrou. A psicanálise funciona porque sentimos e falamos. E, se fazemos isso a partir de uma posição apropriada, não tem como não ter uma transformação e caminhar numa direção que te leve a sofrer menos com o que você mesmo causa.

Fonte: Estadão - Entrev. Maria Lucia Homem

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