Memórias que nos fazem adoecer

Caracterizado pelo medo e pela incômoda repetição de uma recordação intensa de uma situação de ameaça à vida, o estresse pós-traumático pode aparecer em forma de ansiedade, compulsão, depressão e sintomas físicos

Vivemos em um mundo perigoso. Talvez não mais que em outros tempos, mas certamente arriscado. A despeito de eventuais conquistas, estamos (e talvez sempre tenhamos estado) sujeitos a violências e agressões. Por mais que nos saibamos vulneráveis, gostamos de pensar que certas situações estão distantes, restritas à tela da televisão, do computador, às páginas dos jornais. Coisas que acontecem com os outros… Até que descobrimos, surpresos e  magoados, que também ocorrem conosco.6790_9780_2

E mesmo quando não há ferimentos aparentes estamos sujeitos às graves consequências do estresse pós-traumático. Tragédias, grandes ou pequenas, nos fazem pensar o quanto a vida é repleta de riscos e, a qualquer momento e em qualquer lugar, é possível acontecer algo inesperado conosco ou com quem amamos. Segundo dados do National Comorbity Study, dos Estados Unidos, cerca de 60% da população enfrenta um evento grave em algum momento de sua vida – seja a morte inesperada de um ente querido, um assalto, um acidente de carro ou uma catástrofe ambiental, por exemplo. Em média, uma em cada dez pessoas que viveu de forma direta uma situação potencialmente traumática desenvolve o distúrbio; um transtorno de estresse pós-traumático.

É frequente que aqueles que vivenciaram situações violentas, que colocam a vida em risco, ainda sofram durante muito tempo depois com as lembranças. Para a psicóloga Marisa Fortes, mestre em psicologia social, a situação em Santa Maria pode se caracterizar como um problema de saúde pública. “A memória traumática invade as pessoas e, para alguns, apenas o fato de viver no local, ter filhos da mesma idade dos jovens que morreram na boate ou mesmo ter acompanhado as imagens, exaustivamente transmitidas pela televisão e pela internet, pode ser suficiente para que se desenvolva um TEPT”, alerta Marisa, autora de De vítima a sobrevivente: um guia para identificar e tratar o transtorno de estresse pós-traumático (Casa do Psicólogo, 2011), em parceria com o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, professor da Universidade de São Paulo (USP).

Estudos realizados por pesquisadores como Mooli Lahad, do Centro Comunitário de Prevenção de Estresse em Kyriat Shmona, em Israel, mostram que as consequências de um choque traumático podem ter duração diferente para cada vítima. A manifestação depende, entre outras coisas, de quão ameaçadoras foram as vivências prévias e da personalidade de cada um. Ou seja: os efeitos patológicos não estão associados somente do episódio potencialmente estressor, mas principalmente de como percebemos e processamos a situação. Por si só, nenhum fato é traumático – depende de como é vivido. Um diferencial na possibilidade de superar a situação especialmente difícil e dolorosa, sem desenvolver o transtorno, é a capacidade de resiliência, que varia de pessoa para pessoa. O termo, “emprestado” da física pela psicologia, refere-se à resistência psíquica que propicia a recuperação.

Embora haja alguma divergência entre os especialistas, é possível dizer que, na maioria dos casos, os sintomas eclodem em um prazo aproximado de dois a três meses após o evento. Por isso é tão importante que aqueles que tiveram vivências potencialmente traumáticas fiquem atentos a eventuais sintomas. Estudos com neuroimagem revelam que pacientes submetidos a psicoterapia mostraram decréscimo da atividade da amígdala e aumento da atividade do córtex pré-frontal, do hipocampo esquerdo e dos lobos parietais (estes últimos relacionados à orientação espacial e temporal dos eventos). Após a terapia, houve diminuições médias significativas nos escores sintomatológicos do TEPT parcial, no impacto do evento traumático e nos índices de ansiedade. Além da psicoterapia, fundamental, há casos em que pode ser indicado também o uso de medicamentos. Muitas vezes, porém, as drogas garantem sucesso apenas relativo.

Não raro, o evento traumático ainda exerce influência sobre a pessoa anos mais tarde, assombrando seu cotidiano. Por isso é tão importante estar atento a eventuais sintomas e, num primeiro momento, oferecer às pessoas informações sobre as possíveis manifestações patológicas que podem aparecer nas semanas seguintes. Mesmo antes que apareçam os sintomas, a psicoterapia individual ou a participação em grupos de psicoterapia pode ajudar as pessoas a lidar com sentimentos e lembranças, evitando que o transtorno se instale. A boa notícia é que para muita gente medidas básicas como acolhimento, informação e apoio são suficientes em um primeiro momento para ressignificar a vivência, acomodar o que a pessoa enfrentou e reintegrar as informações da memória traumática.

Fonte: Estadão

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