O Luto

O luto faz parte do ciclo vital, sendo permeado pela cultura, fatores externos e internos, psicodinâmica individual e familiar, experiências de vida, condições da perda, significado da morte, e rede social de apoio de cada indivíduo. O processo de luto, a curto ou a longo prazo, pode ter diversos resultados. É de suma importância a intervenção psicoterápica nos processos de luto patológico, pois quando não tratado pode agravar-se e estender-se por muito tempo, ficando o paciente vulnerável à deterioração física e mental, bem como sujeito a estados depressivos graves e quadros psicóticos.

Complicações severas podem surgir como consequência do luto, por exemplo, a ocorrência de transtorno do pânico, uso de drogas e álcool, além do risco de suicídio (Cordioli, 1998). O tratamento do luto é uma tarefa difícil, pois exige acuidade clínica para perceber, diagnosticar e indicar a intervenção terapêutica mais adequada, visto que isto implica em reviver nossos próprios lutos. Para tanto, devemos estar disponíveis para uma identificação parcial e controlada com os vários aspectos em conflito na configuração do processo de luto.

O luto é um tema incomum em nossas conversas diárias, assim como nos trabalhos acadêmicos. Isso porque dar-nos conta de nossa finitude nos confronta com uma realidade desidealizada, quase surreal.

HISTÓRIA DA MORTE NO CONTEXTO OCIDENTAL

Apesar da familiaridade com a morte, os antigos temiam a proximidade dos mortos e os mantinham à distância. Por isso, em Roma, a Lei das Doze Tábuas proibia o enterro in urbe (do latim: cidade). O código Teodosiano repete a mesma proibição, para preservar a sanctitas das casas dos habitantes. Por essa razão os cemitérios eram situados fora das cidades, à beira das estradas como a Via Appia em Roma e os Alyscamps em Arles. O hábito de fazer túmulos nas cidades começou com os mártires que eram enterrados nas necrópoles comuns a cristãos e pagãos. A população queria ser enterrada perto deles, então em dado momento tal proibição desapareceu (Ariés, 2003).

Não se tinha    a ideia moderna de que o morto deve ter um tumulo só para si, como proprietário ou locatário perpétuo. Na idade média e nos séculos XVI e XVII, pouco importava o destino dos ossos, desde que permanecessem perto dos santos ou na igreja. A partir do século XVIII, o homem dá um novo sentido à morte. Ele a exalta e se ocupa mais da morte do outro do que a sua, esse outro cuja saudade inspira tantos no século XIX e XX. A morte passa a ter um sentido erótico. Nas danças macabras mais antigas, a morte mal tocava o vivo para avisá-lo. Na iconografia do século XVI ela o viola (quadros de Hans BaldungGrien, morto em 1545, Le Chevalier, as fiancée et lamort, no museu do Louvre, e La mort et lajeunefemme, no museu da Basiléia), e até o século XVIII arte e literatura associam morte e amor, Tanatos a Eros. Para o Marques de Sade a morte é uma ruptura, como o ato sexual. Essa noção de ruptura nasceu e se desenvolveu no mundo das fantasias eróticas e passou aos fatos reais. A morte passa a ser admirada por sua beleza, chamada morte romântica, de Lamartine na França, da família Brontë na Inglaterra, de Mark Twain na América (Ariés, 2003).

A partir do século XII, o luto excessivo da Alta Idade Média ritualizou-se com indumentária, hábitos e duração prolongada. O luto tinha a função de defender o enlutado dos excessos da dor, pois lhe era imposta uma convivência social, visitas de parentes, vizinhos e amigos, onde ele expressava a dor no limite das conveniências. O século XIX é a época dos lutos “histéricos”, pois toca os limites da loucura, como no conto de Mark Twain, The Californian’s Tale. Essa é a origem do culto moderno aos túmulos e cemitérios. Parte da população passa a enterrar os mortos em propriedades da família. Aqui a concessão da sepultura tornou-se forma de propriedade, com perpetuidade assegurada, onde poderiam visitar, assim como se visita um parente. E os descrentes são os visitantes mais assíduos dos túmulos, adotando o habito de pôr flores nos túmulos para “cultuar” as lembranças. Este culto à lembrança contagiou a sociedade, e surgiram os parques para visitas familiares e museus para pessoas ilustres (Ariés, 2003).

CONCEITUAÇÕES

Vários autores definiram luto normal ou patológico de acordo com variáveis clínicas ou tempo de duração. Parece não existir consenso quanto à duração, pois varia entre dois meses (DSM-IV, 2002) e duas semanas (DSM-V, 2013) a mais de um ano (Freud, 1915). O luto normal é caracterizado por sintomas depressivos, de duração e intensidade instáveis, que tendem a se resolver sozinhos. Subdivide-se o processo de luto em três fases: 1. Choque inicial ou negação – estarrecimento e lamentação; 2. Angústia aguda e isolamento social – mal-estar físico, preocupações, revolta, culpa, agitação, perturbação dos padrões usuais de conduta e identificação com a pessoa perdida; 3. Resolução – retorno ao trabalho e papéis sociais, busca de novos prazeres e amor (Cordioli, 1998).

Freud (1915) definia o luto como uma reação à perda de um ente querido, ou objeto equivalente, diferenciando-o da situação de melancolia, por esta última envolver também a perda de um objeto, mas inconsciente, o que levaria ao estancamento da libido no ego. Um luto normal, para ele, embora envolva afastamentos das atividades laborais, não constitui uma condição patológica, sendo superado após um ou dois anos.

            Já o luto patológico traz várias classificações: retardado ou ausente; crônico, severo ou hipertrófico (reação a mortes súbitas); e de alto risco para doença psiquiátrica ou médica. Os sintomas, neste caso, podem variar desde hiperatividade compulsiva, sem sentimento de culpa; deterioração da saúde, com desenvolvimento de doenças somáticas; identificação com o morto e aquisição de sintomas pertencentes à ultima doença deste; e alienação com sintomas psicóticos e depressão severa. Pode haver casos ainda, de adiamento dos sintomas, em que o luto é experimentado após muito tempo da perda. O quadro pode ser desencadeado por uma perda mais recente ou pela chegada do paciente à idade da morte da pessoa perdida. Incluem-se aí traços obsessivos de personalidade, bem como o papel de “forte” imposto pela família ou por si mesmo. Em todas as condições patológicas, a essência da reação psicológica se constitui por extrema culpa e revolta contra o morto (Cordioli, 1998).

RELIGIOSIDADE E FÉ

A morte não é vista como um processo natural para a maioria de nós. É considerada um equívoco da natureza, decorrente da vontade divina ou maligna. Para suportar a dor e a angústia provocada por esse fenômeno, o homem recorre a explicações sobrenaturais:

“Há os elementos, que parecem escarnecer de qualquer controle humano; a terra, que treme, se escancara e sepulta toda a vida humana e suas obras; a água, que inunda e afoga tudo num torvelinho; as tempestades, que arrastam tudo o que lhes antepõe, as doenças, que só recentemente identificamos como sendo ataques oriundos de outros organismos, e, finalmente, o penoso enigma da morte, contra o qual remédio algum foi encontrado e provavelmente nunca será. É com essas forças, que a natureza se ergue contra nós, majestosa, cruel e inexorável; uma vez mais nos traz à mente nossa fraqueza e desamparo, de que pensávamos ter fugido através do trabalho de civilização”. (Freud, 1928/2006, p. 25).

Por meio de crenças religiosas, que vêm da necessidade em tornar seu desamparo suportável, o homem encontra subterfúgios para enfrentar as forças da natureza. Esses fenômenos passaram a receber menos traços humanos com o passar dos anos.

O desamparo do homem, porém, permanece e, junto com ele, seu anseio pelo pai e pelos deuses. Estes mantêm sua tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do “Destino”, particularmente a que é demonstrada na morte, e compensá-los pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs (Freud, 1928/2006, p.26).

Em diferentes culturas é possível observar o mito da imortalidade, seja por crenças e ritos, ou de forma simbólica. O desejo de imortalidade encontra expressão mediante a descendência que garante sua perpetuação. A produção criativa é uma forma simbólica de garantir sua eternidade. Os atuais rituais para manutenção da juventude são reedições desse misticismo, uma forma de adiar o confronto com a morte, atrelado social e culturalmente à velhice (Bromberg, 2000).

Ao enlutado é confiada a tarefa de retirar o investimento do objeto, visto que ele já não existe a realidade exige uma separação (Freud, 1925/2006).O luto vivido simbolicamente relacionado à morte de amigos ou familiares, é também vivido no corpo, e tem repercussão forte nos âmbitos profissional, social e familiar. São perdas que perpassam a dimensão do físico, em sua concretude. Além disso, é pertinente refletir o atravessamento da cultura, que é um fenômeno fortemente atrelado à forma como cada indivíduo vivencia sua perda.

IMPLICAÇÕES ALIMENTARES

Diante de um luto há mudanças no humor e no padrão comportamental, como dificuldade para concentrar-se, agressividade verbal ou física, fadiga, desregulação do sono, da fome e os autocuidados são mínimos. Em consequência, aparecem múltiplos problemas somáticos, que se intensificam e associam-se como resposta ao luto. Surge a melancolia, a sensação de impotência perante a morte e a falta de prazer com as atividades. A persistência desses sintomas e do estresse afeta ainda a função imunológica, o que predispõe o organismo ao surgimento de doenças (Campos, 2013).

Vivemos todos um processo dinâmico de adaptação à situação vivenciada, onde pensamentos, sentimentos, conduta e mecanismos biofisiológicos mudam continuamente para ajustarem-se ao ambiente em constante transformação; a dificuldade em superar a vivência de experiências estressantes causa a ruptura do bem-estar, e como consequência há o desgaste do organismo na resposta orgânica e na esfera psicológica: quebra da homeostase. Denominamos “estresse”, um processo complexo e multidimensional. A maioria dos indivíduos consegue lidar com o estresse comum, mas sua capacidade adaptativa é insuficiente diante de um evento como a morte; a ruptura desse bem-estar constituiria o distress – forma danosa do estresse (Campos, 2013).

É difícil separar a alimentação da afetividade, pois tudo aquilo que vivemos e sentimos pode interferir no comportamento alimentar, que é uma das bases das representações psíquicas. No que tange aos enlutados recentes, a perda de peso corporal significativa e rápida é uma das probabilidades em decorrência da restrição no consumo alimentar. Nas situações de agressão de natureza psicogênica, o elemento hormonal fundamental de resposta orgânica reativa é o hormônio liberador de corticotrofina (CHR). O corpo emagrecido representa o desejo da própria morte e requer intervenção imediata, por ser um padrão comportamental de autoflagelo. O aumento do cortisol é um fenômeno esperado, uma vez que ele induz à proteólise e à lipólise para obtenção de energia, mas a produção excessiva torna-se prejudicial (Campos, 2013).

O córtex, por sua vez, percebendo o evento traumático, aciona um circuito cerebral subcortical, por meio das estruturas que controlam as emoções e as funções dos sistemas viscerais, e esta ativação causa, dentre várias outras reações orgânicas, a liberação de catecolaminas no hipotálamo – adrenalina e noradrenalina – que também provocam anorexia, suscitando ao organismo uma resposta de enfrentamento. O aumento de peso já requer outra análise: pode ocorrer se o ato de comer for atrelado à busca por compensações que possam aliviar, por alguns segundos, a tristeza profunda. A ansiedade gerada por esse tipo de separação pode desencadear a compulsão alimentar, pois o alimento passa a ser um refúgio que propicia pequenos momentos de bem-estar (Campos, 2013).

SOBRE O LUTO COMPLICADO

Quando há a perda de um ente querido, a pessoa enlutada precisa redefinir o self e reaprender formas de envolver-se com o mundo sem a pessoa falecida. O enlutado não pode retornar a um nível de funcionamento pré-perda, mas deve aprender como desenvolver uma vida significativa. Apenas 20 a 30% dos indivíduos enlutados funcionam bem sem passar pelo processo de construção de significado. Mas é importante salientar que a construção de significado é um processo, não um resultado ou conquista, independente de cultura. Em qualquer parte do mundo há uma tentativa, quase universal, para recuperar o objeto perdido e/ou existe a crença de além-morte, e que se possa reencontrar a pessoa amada. Segundo estudo realizado em 2003, o luto é mediado por uma rede neural distribuída, que facilita vários processos neuronais, e afetam várias partes do cérebro e suas funções, incluindo processamento afetivo, mentalização, recuperação da memória, imaginação visual e regulação autônoma (Worden, 2013).

George Engel (1961, citado por Worden, 2013) considerava que a perda da pessoa amada é tão traumática psicologicamente como ser gravemente ferido ou queimado. O autor comparava o processo de luto ao processo de cicatrização, pois quase todas as funções podem ser recuperadas, necessitando apenas de tempo.

ESTILO DE ENFRENTAMENTO DO LUTO

Há diferentes paradigmas para compreender o enfrentamento, mas resumidamente, o enfrentamento é aquilo que o indivíduo faz com o problema, para ter alívio ou resolução. Existem três tipos de funções de enfrentamento: 1-Enfrentamento de solução de problemas: estratégias ineficazes são usadas pelos indivíduos com habilidades mais fracas, que desistem quando falham. Devemos ensinar às pessoas formas de solucionar problemas quando lhes faltam habilidades. 2-Enfrentamento Emocional Ativo: É a estratégia mais eficaz no estresse. A redefinição é a habilidade de encontrar algo positivo ou redentor em situações ruins, que pode culminar em crescimento\amadurecimento. O humor é outra estratégia eficaz. Requer certa distância do problema, o que pode ser favorável por um tempo. 3-Enfrentamento com Evitação Emocional: provavelmente a estratégia menos eficaz, pois envolve distração do enlutado, negação e isolamento social, além de uso e abuso de substâncias (Worden, 2013).

O luto é finalizado quando a pessoa consegue pensar no morto sem sentir dor, sem as manifestações físicas como choro intenso ou aperto no peito, quando consegue reinvestir suas emoções na vida e no viver, quando há novamente esperança e se adapta a novos papéis (Worden, 2013).

A queixa dos pacientes geralmente é por tratar-se da perda de um filho, de um cônjuge, ou de um dos genitores. Com a magnitude das perdas impostas, é comum o seguinte relato: “É como se tivessem arrancado um pedaço meu: um braço, uma perna”, afirmação que Freud já descrevia, de que a perda de alguém amado é vivida como perda no próprio Eu (Freud, 1915/1996), que parece concentrar-se nessa perda a tal ponto que fica totalmente absorto e não consegue valorizar outras questões que antes lhe interessavam. O pai da Psicanálise ensinava um trabalho que demanda tempo para ressituar-se o campo narcísico e elaborar o luto (Castilho & Bastos, 2013).

O paciente enlutado tem a sensação de que a pessoa perdida não será esquecida jamais e que não tornará a investir em outro da mesma forma- caráter insubstituível. Porém em “Luto e melancolia”, Freud (1915/2006) enfatiza a substituição do objeto ao final do processo de luto. Allouch (2004) e Rabinovich (1993) concordam que cada luto, efetivamente, comporta algo de insubstituível. “Por esta razão, nem todos os buracos são equivalentes nem podem substituir-se entre si, não são homogêneos” (Rabinovich, 1993 p. 61). O adendo de Freud (1926/1989), “Angústia, dor e luto”, mostra-se fundamental, pois trata-se de um momento distinto daquele em que foi escrito “Luto e melancolia”. Ao afirmar que nem tudo na pulsão é sexual, libidinal, permite apreender, que nem tudo é passível de substituição.

Cabe aqui lembrarmos o que Lacan (1958-1959) diz sobre o luto e a privação: “A dimensão intolerável oferecida à experiência humana, não é a experiência da própria morte, que ninguém tem, mas a da morte de um outro” (p. 74). “É um comentário semelhante ao de Freud (1915/2006) sobre a falha de registro no inconsciente sobre a própria morte. Lacan (1958-1959) questiona: “O buraco desta perda, que provoca no sujeito o luto, onde está ele? Ele está no real” (p. 74). Consideramos que precisar deste aspecto no luto, dito normal, indica que o trabalho de desligamento do objeto, comandado pelo teste de realidade, localiza a perda ao lado da castração, buraco no simbólico, ao final do trabalho de luto. Observamos em alguns relatos, que o enlutado sente a morte do familiar como uma punição por algo secretamente vivenciado, pois fantasiaram em algum momento de raiva ou briga, essa morte que agora é real. Freud (1915/2006) aponta o luto como sendo um evento normal da vida, gerador de um estado de ânimo doloroso que, por sua vez, provoca o desinteresse pelo mundo exterior e resguarda apenas aquilo que possa relembrar o morto.

A sentença recebida de que o objeto não mais existe soa implacável. O momento inicial, pronunciado pela realidade talvez seja o mais doloroso, e o que impõe mais risco à vida do enlutado. Diante do insuportável veredito, a primeira reação, do indivíduo é deixar-se abater, sente-se confuso e inundado por emoções, e alguns apresentam ideações ou tentativas suicidas. Contudo, apesar de reconhecer o desejo de partilhar o mesmo destino, são persuadidos pela satisfação narcísica por estarem vivos.

A forma como a notícia da morte é revelada ao paciente contribui muito nas fantasias e na elaboração do luto. Geralmente ouvimos relatos de um duplo desamparo: a ausência do falecido e a ausência de compreensão de sua rede familiar e social. Não há falta de consolo ou carinho de seus familiares e amigos, mas estes também ficam abalados com a perda, e não sabendo lidar com os próprios sentimentos, suas estratégias giram às vezes em torno da negação. Surgem então as críticas: “Chega de lamentar, é a vida”, “tem que aceitar, Deus quis assim”, “tem que tocar a vida, trabalhar é o melhor remédio”. Significa que houve falha do meio ambiente, que não demonstrou confiabilidade. Seu ódio pode recair sobre a equipe médica, e/ou a instituição hospitalar, mas também sobre seus familiares, atribuindo aos primeiros a falha na recuperação da saúde do ente querido, e aos últimos a falta de compreensão de sua dor. Assim, parafraseamos Winnicott (1965/2007) que diz: “Trauma é um fracasso relativo à dependência. O trauma é aquilo que rompe a idealização de um objeto pelo ódio do indivíduo, reativo ao fracasso desse objeto em desempenhar sua função” (p. 113).

O processo de luto é paulatino, demanda um tempo e uma grande quantidade de energia, pois, para cada lembrança e expectativa investida na ligação com o objeto desaparecido, deve ocorrer um desinvestimento, para que ao final do luto, o Eu volte a ser livre e volte a conectar-se ao mundo exterior sem entraves ou inibições.

TIPOS DE INTERVENÇÃO PSICOTERÁPICA

Psicoterapia de Apoio

É comum um terapeuta ser solicitado a atender pessoas em luto normal. A psicoterapia de apoio é a forma indicada, visto que permite ao enlutado, através da ventilação da lembrança de situações envolvendo a pessoa falecida, fazer a catarse de suas emoções, e ter o suporte que lhe permita seguir com o processo de luto (Cordioli, 1998).

Conforme Costa (2012), a psicoterapia de apoio é baseada na compreensão dinâmica da problemática do paciente, e avaliação da transferência e contratransferência.  Assim, o terapeuta reforça os mecanismos de defesa e integra as capacidades lesadas do indivíduo, ofertando-se como suporte durante um período turbulento, uma figura investida de autoridade. Dessa forma, restabelece-se o equilíbrio emocional e aplacamos a angústia e os sintomas que a acompanham. Leva-se em consideração a força do ego do paciente. Essa modalidade é mais utilizada para pacientes que não têm recursos internos para outro tipo de enfoque terapêutico.

Mantém-se a atitude analítica, porém, são utilizadas as técnicas fundamentais, como a clarificação e confrontação. Não exploramos a interpretação propriamente. Contrapondo, utiliza-se o suporte cognitivo e emocional, como o reforço, sugestões, conselhos e o reasseguramento. A atitude do terapeuta é mais ativa e próxima do que na psicoterapia expressiva, mais focada nos aspectos da vida quotidiana do paciente, e na relação com o terapeuta. A transferência positiva é usada como veículo de tratamento. Mais do que a resolução dos conflitos inconscientes, buscamos um insigth voltado para a mudança de comportamento e nos relacionamentos. Costa (2012)

Psicoterapias Breves

Há várias formas de trabalhar o luto com um paciente. Destaca-se dentre as Psicoterapias Breves (PB) a psicoterapia dinâmica para síndrome de respostas ao estresse, que consiste em 12 sessões. Esta foi proposta por Horowitz (1984), do Departamento de Psiquiatria da Universidade da Califórnia. A técnica é baseada nos princípios de Malan e Sifneos, onde por meio de confrontação, clarificação e interpretação dos conflitos, conscientes e inconscientes, se estabelece uma relação de confiança. O foco dá-se nas implicações da perda de uma relação para o autoconceito, explorando-se o passado e o presente e fazendo projeções para o futuro. O paciente é esclarecido sobre as diferenças entre crenças fantasiosas (agressão e culpa) e a avaliação realística das implicações da morte (Cordioli, 1998).

Outra PB bastante utilizada nestes casos é a re-grief therapy, ou terapia da retomada do luto. Dura cerca de quatro meses, com pelo menos três sessões semanais, aplicável, segundo o autor (Vamik Volkan, 1980), em pacientes com funções do ego intactas, capazes de diálogo psicológico, motivados, e com um quadro de luto patológico bem estabelecido. É agrupada em três etapas: 1. Exercícios demarcatórios: ajudamos o paciente a distinguir entre o que é dele e o que pertence à representação mental que ele fez do objeto perdido. 2. Fase do objeto de ligação: sugere-se ao paciente que traga para a sessão algum objeto da pessoa falecida, e então interpreta-se sentimentos despertados. 3. Reconstituição dos últimos tempos da relação do paciente com o falecido, e as fantasias antes, durante e depois da morte (Cordioli, 1998).

Um terceiro tipo de PB é a Interpessoal, que tem por objetivo facilitar o processo de luto e ajudar o paciente a restabelecer interesses e relações que substituam a perda. São utilizadas estratégias para determinar o real significado do luto e emancipá-lo da ligação com o morto (Cordioli, 1998).

Psicoterapia de Orientação Analítica

Em situações de lutos antigos, crônicos, retardados, inibidos ou repetidos, percebe-se que características do caráter ou da personalidade impedem a abordagem focal, perpetuando a situação de luto patológico. É de fundamental importância, o diagnóstico adequado e indicação terapêutica precisa. O manejo da transferência e contratransferência, que aparece em qualquer forma de terapia aplicada, deve ser observado. O terapeuta representa o objeto perdido, geralmente, e o paciente revive sentimentos ambivalentes com ele. Conforme Quinodoz (1993, citado por Costa, 2010), a angústia de separação é uma emoção estruturante para o ego, pois sentir a dor da solidão torna-nos conscientes de que existimos como ser só e único em relação ao outro. Porém, como observa Costa (2010), quando a angústia de separação é excessiva o indivíduo pode experimentá-la como um temor trágico de se ver abandonado pelo objeto, fonte primária da dor psíquica e do sentimento de luto.

A partir de “Luto e melancolia”, Freud (1915/2006) foi construindo a ideia de que o ego se defende dos sentimentos penosos despertados pela perda do objeto através da cisão, uma parte se identificando com o objeto perdido e negando a realidade da perda, enquanto a outra parte reconhece a realidade da perda.

Atualmente, o mais comum é recebermos em nossa clínica pacientes sem uma definição clara do seu sofrimento, alguns encaminhados por um clínico devido a sintomas físicos que podem ser confundidos com as somatizações dos histéricos; mas diferente desses, seus corpos são simbolicamente desabilitados de emoções. Muitos demonstram uma capacidade precária para modular operativamente a angústia, recorrendo a meios auxiliares, como as drogas, álcool, compulsões sexuais e alimentares e o acting out, através dos quais tentam atenuar a sensação de vazio, terror ou confusão. Na literatura psicanalítica encontramos diferentes termos para designar os estados anímicos: Sifneus (1973) denominou de “alexitimia”, que quer dizer: não ter palavras para as emoções. Corresponde ao que Marty (1976) chamou de “depressão essencial”, pois não tem objeto; e Kristal (1982) nomeou de “anedonia”, significando incapacidade para experimentar sentimentos (Costa, 2010).

De acordo com Freud (1915/2006) as características necessárias para o desenvolvimento do luto patológico seriam a predominância de um tipo narcisista de escolha objetal e o grau de ambivalência na relação prévia com o objeto perdido. É, portanto, uma diferença qualitativa entre aspectos normais e patológicos do processo de luto. Já Melanie Klein (1940/1996) postula que durante seu desenvolvimento a criança passa por estados mentais comparáveis ao luto do adulto, e o objeto de perda é o seio materno e tudo que ele representa. O sofrimento causado por essas experiências infantis tem algo em comum com o luto, reativando a “posição depressiva infantil”. O luto patológico, portanto, seria originado na falha ao estabelecer bons objetos internos (Cordioli, 1998). 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Algumas pessoas buscam consolo para o luto na religião, nos livros de autoajuda, ou ainda nos grupos de apoio. Mas qual o papel do terapeuta frente a esse tipo de demanda? Como criar um espaço de continência para que o paciente possa trazer à tona o sofrimento, a dor da perda, a solidão? Precisamos fazê-los descobrir a possibilidade de transformação dessa dor em algo produtivo e bonito, mostrá-los que a perda ensina, aprimora a forma de relacionar-se com o outro.

Quando o paciente chega ao consultório dilacerado, desesperançoso, enfrentando uma dor que parece ser, e às vezes de fato o é, a maior de sua vida, temos uma árdua tarefa. Geralmente, a negação e a culpabilização são os mecanismos de defesa mais usados para lidar com a perda. Entretanto, a dor real é apenas um catalisador de todas as dores negadas ou recalcadas até então. Cabe ao terapeuta, portanto, ajudar na elucidação e posterior elaboração do luto, permitindo com isso que o paciente se abra para as outras pessoas que o cercam e se permita também novas relações. Entretanto, todo ser humano tem uma tendência instintiva de evitar a dor, e as psicoterapias psicanalíticas em geral, colocam em questão essa máxima, já que é uma intervenção terapêutica que exige o contato com a dor real e suas derivações inconscientes – temos, portanto, que enfrentar este paradoxo.

A psicoterapia configura um espaço saudável na busca do reajustamento que a vida impinge ao enlutado, a fim de que tenha um espaço acolhedor para suas falas sofridas, onde possa sentir raiva, desespero, ansiedade extrema, porém com o apoio profissional de alguém capacitado a dar-lhe continência. Este profissional, por sua vez, também deve ter elaborado suas próprias perdas, a fim de constituir-se um continente e, ao mesmo tempo, favorecer que este indivíduo se sinta livre para projetar sua raiva, sua frustração, sua impotência. Ainda como funções da psicoterapia, podemos mencionar a retomada da rotina familiar que, após uma morte, pode se distanciar; a consciência da limitação que o morrer impõe à existência e a aceitação da impotência perante um fato tão devastador; o reposicionamento do indivíduo em sua trajetória e o reajustamento a um novo presente.

Todos os casos atendidos em terapia do luto nesses três anos tiveram êxito. Isso porque não falamos apenas de morte e perdas na terapia do luto. Falamos também de vida, conhecimento e alegrias. Precisamos apresentar-lhes possibilidades, sejam hobbies, trabalho, atividades físicas ou novas amizades e relacionamentos. Mostrar que há sentido na vida, e que vale a pena viver cada minuto dela. Há poucos profissionais ainda que gostam de atender casos de luto, pois o tema traz contratransferências. Mas os que se dispões sabem da alegria ao anunciar uma alta, a recompensa do feedback e a satisfação de ter trazido à vida mais uma pessoa. Esse é um aprendizado que vem junto com o amadurecimento. Como dizia Tolstói: “O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte. E quem não tem medo da morte tem tudo”.

Suzana Moreira, Psicóloga Clínica

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