O PAPEL DA MULHER NO CONTEXTO RELIGIOSO FUNDAMENTALISTA

Apesar dos primeiros grupos pentecostais – Assembléia de Deus (1914), a Igreja de Deus (1906) e Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular (1923) – terem um número considerável de mulheres atuando como clero e missionárias no início de suas atividades (1/3 dos ministros eram mulheres), houve uma drástica redução ao longo dos anos. Hoje raros são os casos de mulheres no corpo governante. Elas podem assumir funções como líder de corais, orquestras, grupo de oração, e até chegam a “diaconizas” (cargo), mas raramente são pastoras, bispas e não encontramos fotografias dos “Encontros de grandes líderes” com a presença de mulheres. Atos “intelectuais”, como pregações, podem ser realizados por mulheres apenas controladas pelos líderes do sexo masculino (Blumhofer, 1993). Mulheres são bem-vindas para serem “mulheres de oração”, para arrumar e limpar a igreja, atender os pobres da comunidade, e fazer visitas. Elas estão nos espaços de serviços, não de liderança.

Homens podem ter algumas namoradas ao longo da vida – à mulher isso é vetado. Mulheres são mais pressionadas que os homens a um casamento – quando mais cedo melhor. Os “usos/costumes” (regras) estão apenas no feminino: blusas não podem ter mangas muito acima dos cotovelos (impossível usar blusas sem mangas), salto baixo ou nenhum, nada de jóias ou maquiagem – tudo para afastarem a sensualidade. É o reflexo da cultura machista – a imagem da mulher moderna é inaceitável, querem mantê-la recatada (Blumhofer, 1993). Mulheres são treinadas nessas religiões para obediência e pureza, mesmo sob violência doméstica. As estatísticas preocupam: 40% das vítimas de agressões na pesquisa de Vilhena, 48,25% em CR Cabo Frio e 90% em Casa de Isabel, eram evangélicas.  Ambas citadas por Campos (2011). Entre a resignação, o sacrifício e a ação: Pensando o fenômeno contemporâneo da violência contra a mulher no segmento evangélico brasileiro. Monografia. Univ. Federal Fluminense. Disponível em: http://www.puro.uff.br/tcc/2011-1/Gisele%20Campos.pdf. A denúncia, que é dever, passa a ser entendida como fraqueza/falta de fé na promessa divina de transformação do marido (Maraldi, 2014, Campos, 2011).

Os fundamentalismos têm em comum uma rígida dicotomia de vestuário e tratamento a homens e mulheres. O vestuário feminino é codificado, em graus variáveis de restrições: desde proibição em usar calças, passando por saias mostrando o menos possível das pernas, chegando ao véu, não podem cortar ou pintar o cabelo ou unhas. Muitas meninas não fazem educação física na escola para não usarem calça/bermuda. As mães trazem atestados médicos para justificar – médicos da religião fornecem ou alegam dores, trocando de médico sempre (Lopes, 2012).

Quantas mulheres conhecemos, infelizes pela falta de respeito dos seus líderes religiosos e consequentemente dos maridos/namorados… em consultório atendemos muitas. Perdem a noção de quem são, do que querem, pois são tolidas em seu direito de expressão. E internalizam este papel de submissão. Passam a viver para servir aos homens. Pois é, isto não acontece só no islamismo… acontece aqui, no mundo ocidental, bem aos nossos olhos. E todos preferem ignorar. Ninguém se importa com o sofrimento dos membros fundamentalistas, afinal de contas (teoricamente) eles escolheram esta vida, “sabiam das regras e assinaram embaixo”. Não é bem assim… Há muita manipulação e perversão envolvida. Membros tornam-se vítimas, pois são iludidos com falsas promessas, ilusões de uma vida feliz, de uma “segunda família”, de “apoio incondicional”. TEORICAMENTE ninguém tem motivos para sofrer nestas religiões. Mas o que percebemos são olhares vazios, rostos sem sorriso, postura caída, tristezas profundas. Sim, muitas mulheres praticantes ativas de religiões fundamentalistas chegam ao consultório querendo o suicídio, pois não vêem saída para sua situação.

“A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio” (Bíblia, 1 Timóteo 2:11-12)

Fé é imprescindível em nossa vida, mas cuidado com o que tentam vender por aí. Ouça com consciência.

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