O que as roupas têm a dizer

Não sei se você já reparou, mas roupas estão em toda parte: parecem se multiplicar em nossos cabides e nas lojas, são exibidas como objetos de desejo nas revistas, criam códigos sociais e deixam muita gente maluca nos dias de liquidação. A forma como nos relacionamos com o que vestimos diz muito sobre movimentos psíquicos. Em comportamentos como colocar sempre a mesma camiseta, usar ou evitar determinada cor, manter cuidadosamente peças de vestuário de entes queridos que morreram prevalecem aspectos de nossa história de vida. Lembro, por exemplo, de uma paciente que atendi há vários anos que jamais usara um vestido. No primeiro ano de análise ela nem cogitava ter essa peça em seu guarda-roupa; no segundo ano, ainda tomada por constrangimentos e autocríticas, queria, mas não se permitia usar vestes que a revelassem mais feminina. No terceiro ano de trabalho analítico descobriu que podia sim usar saias e vestidos – embora não precisasse fazê-lo.

grecia

Claro que sua questão com a roupa não era algo isolado: permeava a maneira como essa moça se relacionava com a história das mulheres de sua família, com o próprio corpo e até com seu desejo de ser mãe, entre tantos outros aspectos. O curioso é que falar da roupa que rechaçava ou escolhia (e na infância era escolhida para ela) arrancou-a da superficialidade inicial do “gosto/não gosto” e dos limites do “não posso”, abrindo espaço para questionamentos mais profundos, resgate de memória e tecidos afetivos há muito tempo esgarçados.
Entre as dobras da aparente futilidade do tema, desvelam-se movimentos íntimos e, muitas vezes, desejos desconhecidos. “Essa segunda pele pertence ao mesmo tempo ao dentro e ao fora, tanto protege a intimidade quanto abre para o espaço social e relacional, ocupa uma posição fronteiriça, de interface entre o eu e o mundo, podendo mascarar o sujeito ou, ao contrário, revelá-lo”, escrevem psiquiatras e psicanalistas francesas Catherine Joubert e Sarah Stern, autoras do livro Dispa-me! O que nossa roupa diz sobre nós (Jorge Zahar, 2007).

Elas argumentam que a forma de se vestir está intimamente associada à história de cada um: “Indica a margem de liberdade do indivíduo diante da família, de seus pares e nas interações sociais. A roupa acompanha a trama da construção de si e expressa a relação com sua imagem, expondo as marcas de fracassos ou sucessos na edificação do narcisismo. Por meio dela, descobrimos vestígios de identificações e memórias. Porém, esse trabalho de decifração de vínculos por meio das roupas só é possível dentro de um contexto determinado e para um sujeito considerado em uma história na qual se insere.”
Pelados como somos, temos ligação antiga com o que recobre nossa fragilidade. Nos primórdios da humanidade, nossos ancestrais recorriam à pele de animais abatidos para se proteger do frio. Ao longo do tempo, essa prática foi se tornando cada vez mais sofisticada: surgiram os adereços e as roupas passaram a ser uma importante forma de comunicação. Como ocorre hoje – tanto em povos indígenas como nas populações urbanas, nos mais diferentes meios – a maneira como uma pessoa se vestia podia indicar sua procedência, o clã ao qual pertencia, seu status no grupo e até mesmo suas intenções.

Diferentes trajes sinalizavam eventos como preparação para a guerra ou cerimônias religiosas. Também parecido com o que fazemos hoje ao escolher o melhor traje para uma reunião importante, um evento ou um encontro especial. Em algumas culturas antigas eram valorizadas cores específicas. Em Constantinopla, capital do Império Bizantino, fundada em 667 a.C. pelos gregos, por exemplo, as peças tingidas com matizes de roxo eram as mais valorizadas, pois para obter essa tonalidade eram utilizados pigmentos raros, que só os nobres podiam comprar.
Mas não é preciso ir muito longe para obter exemplos de que as roupas transmitem informações: nas décadas de 60 e 70, por exemplo, os trajes dos hippies remetiam à ideia de conforto, simplicidade e certa ingenuidade; as flores e os símbolos da contracultura eram constantes. O importante era propagar uma mensagem. De novo: nada tão diverso do que acontece atualmente. Afinal, não é novidade que determinadas etiquetas tornam as peças extremamente valorizadas e revelam o poder de quem as usa. Ou alguém discorda que “o mundo trata melhor quem se veste bem”? E eu fico aqui, pensando com meus botões, lenços e echarpes: o que é se vestir bem? Usar peças confortáveis, de qualidade e, principalmente, adequadas a cada ocasião? Pode ser. Mas desconfio que esses critérios dependam mais da cultura de cada grupo que de verdadeiras preferências individuais, como gostamos de acreditar.

Fonte: Estadão

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