O seguinte trecho diz respeito a qual síndrome?

A vítima, submetida por um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu(s) agressor(es), passa a identificar-se emocionalmente com ele(s) por meio de retaliação e/ou violência. Pequenos gestos educados/doces por parte dos agressores são frequentemente amplificados, porque a vítima não consegue ter uma visão clara da realidade e do perigo em tais circunstâncias. Por esse motivo, as tentativas de libertação são tidas como ameaça. Há estresse físico e emocional extremo, pois  a pessoa acredita que precisa acatar todas as regras impostas pelos agressores para conseguir sobreviver. E ao acatar as regras dos agressores, a vítima passa a evitar comportamentos que os desagradem, procura criar um ambiente com menos aspecto de “terror” e mais de “amenidade”, assim passa a acreditar que, se ainda está bem, é porque o agressor está a proteger-lhe e não quer seu mal.

Tudo ocorre sem que a vítima tenha consciência disso. A mente fabrica uma estratégia ilusória para proteger a psique da vítima. Entretanto, a vítima não se torna totalmente alheia à sua própria situação – parte de sua mente conserva-se alerta ao perigo e é isso que faz com que a maioria das vítimas tente escapar em algum momento.

Sim, estamos a falar da Síndrome de Estocolmo, mas também estamos a falar de TRAUMA RELIGIOSO.

Poder X submissão; AMEAÇA DE CASTIGO ETERNO; Medo do inferno… quem já passou por isso conhece perfeitamente o amargo sabor do medo.

Quando alguém consegue finalmente abandonar uma religião destrutiva/seita, perde o sentido de propósito, sentido de pertença e senso de comunidade. O custo social e emocional para sair da religião fundamentalista- processo denominado “apostasia” – é alto demais. Os relatos de ex-membros revelam que os principais sentimentos são medo, perda, confusão, culpa, rejeição, depressão, ansiedade e raiva. A decisão de não mais frequentar uma igreja ou mesmo passar a frequentar outra, pode ser um processo enlouquecedor. Surge o medo de que suas dúvidas sejam ataques sobrenaturais. O medo do “demoníaco” “ser condenado ao fogo do inferno” tem um efeito paralisante sobre os fiéis, que impede o suscitar de dúvidas e protege a igreja. Isto torna o discurso impermeável a conteúdos conflitantes. Essa ameaça prende muitas pessoas às seitas destrutivas, mesmo que não concordem com suas diretrizes (Adam, 2009; Winell, 2013).

Se por um lado a religião é uma aliada nos tratamentos de dependência química e graves quadros depressivos, pelo suporte emocional e rede de contatos que oferecem, por outro, é subumana a forma de viver imposta. As perdas subjacentes são demasiado grandes. Devemos distinguir duas formas de pertença a uma religião fundamentalista:

1) Conversão depois de adulto;
2) Crianças que já nascem no ambiente fundamentalista: Esse é o cenário mais perverso e o grupo que demanda maior cuidado. A criança não tem opção, apenas aceitar a imposição dos pais. Não há um psiquismo maduro para discernir o que é uma boa conduta. Há manipulações e abusos de todos os tipos, onde a dependência emocional é cultivada, e militam a negação de si mesmo. Os danos em muitos casos podem ser irreversíveis, pois o “treinamento da santidade” anula vontades, opiniões, sonhos ou ambições – devem apenas “servir”, a Deus e à instituição. Ou tornam-se robotizados, sem sentimentos, uma bomba-relógio (pelo excesso de rejeição e raiva), que a qualquer momento poderá perder o controle, sendo um risco para si e para os demais. É um ambiente propício ao desenvolvimento de transtornos de personalidade.

Ensinam condenação eterna, culpa sexual, impedem lazer e convívio com amigos. Disseminam o medo como forma de manter o “rebanho” coeso. Quem é desde criança doutrinado em uma seita destrutiva, é aterrorizado com imagens de inferno, apocalipse, demônios; desenvolvem ataques de pânico, somatizações diversas (doenças de origem emocional), o medo e a ansiedade persistem na vida adulta. A sensação de estar fazendo algo errado o tempo todo é terrificante. A mensagem central é de que fomos gerados em pecado, pecamos todos os dias e “o salário do pecado é a morte”. Não é possível ter boa autoestima ouvindo isso todos os dias. Culpa e vergonha é o que os preenche.

A criança que cresce neste meio, sendo agredida e assistindo a mãe ser agredida diariamente, sem possibilidade de pedir ajuda a alguém, pois todos com quem convive são da igreja – portanto pensam da mesma forma – dificilmente conseguirá manter um equilíbrio emocional. É sim um trauma religioso.

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