Resenha do filme “Uma nova chance para o amor”

Com o título original em inglês The face of love (A face do amor), último filme com a pequena participação de Robin Williams. Apesar da falta de atrativos do nome, a obra evoca um tema contemporâneo: dores e perspectivas diante da longevidade. Um assunto atual, já que nos dias de hoje pessoas maduras e até idosas cada vez mais estão às voltas com questões que envolvem projetos de vida, sonhos, amor e sexualidade. Vale lembrar que Freud, em 1905, ao escrever sobre a importância da psicoterapia, reconhecia que “a idade dos pacientes também deve ser considerada, pois as pessoas próximas aos 50 anos podem carecer de plasticidade para os processos psíquicos”. Essas palavras, porém, precisam ser contextualizadas e reconsideradas, levando em conta que mudanças culturais não só promovem reformulações importantes nos valores e modelos sociais, mas contribuem para outras formas de subjetivação.

Apoiado em uma experiência pessoal, o diretor Arie Posin conta a história de Nikki (Annette Bening), uma decoradora que após 30 anos de casamento perde seu marido por afogamento, repentinamente, durante uma viagem de férias. Na mesma época, sua única filha sai de casa para viver um grande amor. Desde então, a vida parece sem sentido; saudade e isolamento passam a acompanhá-la até que, cinco anos depois, conhece Tom, um artista plástico fisicamente muito parecido com o marido morto, Garret (ambos os personagens vividos por Ed Harris).
Como sair do luto

O encontro acorda em Nikki uma nova vontade de viver, apesar de trazer certa ambiguidade. Ainda pouco disponível emocionalmente, defronta-se com conflitos carregados de desencantos: seu desejo parece estar prisioneiro dos laços amorosos do passado com pouco espaço para o novo. Apesar dos esforços de ambos, a relação não contribui para amenizar a dor da perda, pois a todo momento acaba também por denunciá-la. Na ânsia de reencontrar o que já experienciou, Nikki convida Tom acompanhá-la na aventura de reviver lugares e momentos que reportam sua relação com Garret. No entanto, a frustração acaba por dominá-la.

O filme expressa a complexidade desta experiência: a morte, quando nos toca de perto, também nos aproxima de uma noção mais sensível de finitude. Aliados ao processo de envelhecimento, que exige atenção e cuidados diante das limitações, há a solidão e o fato de que os filhos se preparam para seguir seu caminho.

Em Luto e melancolia, Freud descreve essa experiência associada à sensação de vazio e perda de interesse pelo mundo exterior. Quando um ente querido nos deixa por morte ou outro motivo, costumamos sentir como se uma parte de nós mesmos também se foi. Essa inibição dos afetos aliada a sensações de abandono dificulta a busca de novos objetos amorosos e aspirações. Podem surgir, então, tendências a fixações nos referenciais do passado, muitas vezes idealizados. Investimentos psíquicos podem permanecer cristalizados, enquanto as vivências internas não forem de alguma maneira elaboradas ou, quem sabe, superadas.

A melancolia seria, então, uma espécie de patologia do luto. Numa articulação com o tema do filme, podemos pensar no quanto as angústias vividas pela protagonista a impedem de enxergar outras oportunidades. Seu estado melancólico a deixa recolhida no passado, na ânsia de recuperar o inatingível. O encontro com Tom evoca a ilusão milagrosa de que a dor não existiu, de que seu marido ainda vive.

A psicanalista francesa M. C. Lambotte descreve o imaginário na melancolia a partir da metáfora de um olhar que atravessa o sujeito e se dirige a um ponto fixo indeterminado. É o que chama “moldura vazia”. As perspectivas de busca de alteridade e reencontro consigo, bem como a capacidade de amar e desfrutar da sexualidade, ficam depositadas no amor perdido. Nesse luto permanente, os desejos abandonados e a identificação com o outro ausente impedem o sujeito de verdadeiramente ser. É como se a condição de se sentir nada ou ninguém preservasse o objeto amado.

Lembrando Machado de Assis, “o tempo é um rato roedor de coisas”; e, quanto mais se tenta recuperar o que já foi, mais se revela a impotência. Afinal, quais seriam as saídas possíveis? Em Uma nova chance para amar, parece impossível para Nikki estar ao lado de Tom, ela não consegue mais escapar do vazio; enfrentar e aceitar essa situação permitiu, aos poucos, ressignificar o que foi vivido, e um novo caminho começou a se esboçar.

Aos poucos, entretanto, se instaura um árduo trabalho de reformulação das imagens estéreis e inertes que habitaram por anos seu mundo interno e suas fantasias. O que povoava sua solidão pôde ser reexperimentado sob outra configuração, numa nova trajetória que a fez se reinventar e descobrir em seus cantos psíquicos obscuros recursos que estavam adormecidos. Como disse Garret em algum momento, a decoradora que enfeitava lares vazios agora pode cuidar do ambiente que a cerca: sua casa e seu jardim, até então mumificados por mórbidas lembranças, ganham novos tons com sinais de renovação e leveza.

Não mais prisioneira de si mesma, a protagonista aponta para as conquistas pessoais daqueles que conseguem enfrentar seus medos e angústias graças a um denso trabalho de reconstrução. Seu novo olhar volta a sinalizar a liberdade e delicadeza daqueles que estão em paz. Afinal, quem tem vida interior não fica tão sozinho.

Fonte: Mente & Cérebro

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