Superlativa Hilda Hilst: 15 abortos, 150 cães, 15 mil seguidores no facebook

Se soubesse que, dez anos depois de morta, sua página no Facebook teria mais de 15 mil seguidores, e que sua obra, relançada, venderia mais de 1.500 exemplares em apenas duas semanas, por certo a poetisa pensaria que finalmente enlouqueceu.

Fernando Pessoa previu em um dos seus mapas astrais que ficaria famoso somente após 50 anos de sua morte. Em língua portuguesa ele teve apenas um livro publicado em vida: “Mensagem”, de 1934. Pessoa morreria no ano seguinte e só em 1985, por ocasião dos festejos pelo cinquentenário de sua morte, o poeta alcançaria a glória merecida (graças também à edição de seus poemas em inglês e à publicação do “Livro do desassossego”, diga-se de passagem, um texto em prosa).

Hilda Hilst, embora tenha feito experimentos extra-sensoriais exóticos – como tentativa de contato com o além via ondas de rádio – não previu nada, mas aconteceu. Após 10 anos de sua morte, a escritora brasileira é celebrada (e consumida) como nunca fora em vida – o que não quer dizer que não tenha alcançado reconhecimento enquanto ainda era viva.

Se estivesse entre nós, certamente Hilda se surpreenderia com os números que atualmente são associados ao seu nome: 15 mil seguidores numa página no Facebook, 1.500 livros vendidos através da loja virtual Obscena Lucidez (de Daniel Fuentes, herdeiro de sua obra) em menos de duas semanas e 23 livros relançados pela Globo Livros neste ano.
Há quem diga que sua poesia é mediana, porém, ninguém contesta o seu magnetismo pessoal, ousadia e audácia.
Afinal, não é qualquer pessoa que tem coragem de bater na porta de Marlon Brando no meio da madrugada com a desculpa de querer entrevistá-lo; ou de fazer 15 abortos; ou de escrever sobre sexo numa época em que as mulheres apenas faziam curso de bordado, datilografia e culinária.

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Seu primeiro livro, “Presságio”, foi publicado quando ela tinha apenas 20 anos de idade. Na Casa do Sol, sítio localizado em Campinas-SP, onde Hilda passou a viver após a morte do pai, em meados de 1966, há mais de três mil livros com anotações feitas pela escritora.Outro número que abraça sua superlativa personalidade? 150 cães.
Por que Hilda se surpreenderia com o “boom” de sua literatura? Porque no final de sua vida teve grandes dificuldades financeiras, não conseguindo nem mesmo alimentar os cães, e só não passou fome porque ganhava uma bolsa da Universidade de Campinas, onde participou em 1986 do Programa Artista Residente da Unicamp.

Hoje, seu sítio abriga um teatro com capacidade para 125 pessoas, chamado Instituto Casa do Sol, que exibe peças da autora, e o cineasta Walter Carvalho deu início a um longa-metragem de ficção sobre sua vida (Tainá Müller interpretará a escritora quando jovem) que deve ser finalizado em 2016.
Hilda Hilst, que passou boa parte de sua existência com medo de enlouquecer (seu pai morreu num hospital psiquiátrico após anos internado devido à esquizofrenia), certamente pensaria que finalmente tinha enlouquecido, se chegassem a ela as últimas notícias sobre a sua obra.

Fonte: Obvious

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