Tema tabu entre homens, depressão pós-parto atinge um em cada dez pais

Father Watching His Infant Sleep ca. 2003Assim que a mulher fica grávida, toda a atenção da família e dos médicos se volta para ela e para o bebê. Enquanto isso, o pai, na maioria das vezes, passa a desempenhar papel de coadjuvante na história e tende a lidar sozinho com os medos e a insegurança da paternidade. Nessa circunstância, não é incomum que o homem desenvolva um quadro de depressão pós-parto. O tema, no entanto, ainda é tabu.

Um dos estudos mais consistentes sobre o tema, publicado pelo “The Journal of the American Medical Association”, em 2010, apontou que um em cada dez pais no mundo apresenta depressão pós-parto. Se considerarmos os quadros de tristeza e ansiedade, o número aumenta para 25%. Para ter uma ideia, apenas 5% dos homens sem filhos apresentam quadro depressivo na mesma fase da vida.  Existem ainda outros fatores que contribuem para a depressão. Se a mulher desenvolveu depressão pós-parto, se o homem teve um quadro de tristeza anteriormente ou se é o primeiro filho, por exemplo, as chances aumentam de três a quatro vezes.

Sintomas

Alterações de sono e apetite, problemas de concentração, falta de interesse, ansiedade, irritabilidade, dor de cabeça, dor de estômago, dores crônicas, insegurança e medo exagerado do que pode acontecer com o filho são alguns dos principais sinais da depressão. Além dos sintomas clássicos, o homem pode ter um comportamento diferente do apresentado pela mulher. Ele passa, por exemplo, a trabalhar mais, a assumir tarefas em excesso. Muitas vezes, começa um curso ou uma faculdade nova.

Sabe-se que, assim como nas mulheres, os homens sofrem alterações hormonais ao longo do primeiro ano da paternidade. A principal delas é uma baixa na testosterona. Também pode haver aumento de cortisol, estrogênio, vasopressina e prolactina. As alterações desses hormônios ajudam o homem, do ponto de vista biológico, a dar atenção à criança. Quando tais substâncias se alteram demais, há um impacto no desenvolvimento do seu papel de pai, mas é óbvio que existem outros fatores externos que contribuem para o quadro.

Enquanto  na mulher, a depressão pós-parto se manifesta já nos primeiros meses após o nascimento do filho, no  homem, a doença se intensifica entre o terceiro e o sexto mês da criança, podendo se estender até um ano. Isso acontece porque o pai passa a ser mais solicitado a partir do terceiro mês do filho. A mulher começa sua experiência materna no processo de gestação, mas a ‘ficha’ do homem começa a cair quando o bebê se volta mais para ele.

Fatores externos que contribuem para o quadro depressivo

Por uma questão cultural, o homem passa a se ver muito mais como provedor da casa e começa a se preocupar com os gastos. Também temos a questão do desgaste físico por conta dos cuidados com o bebê. Nesse período, ele é deixado de lado, já que a atenção está muito mais voltada para a mãe e a criança.

Para Lúcio Moreno, pesquisador da USP, existem questões pessoais muito profundas que vêm à tona com a paternidade. “Antes, o homem depositava todos os seus ideais no filho. Ele seria tudo aquilo que o pai não conseguiu ser. Hoje, vemos uma mudança de visão. Alguns homens passam a culpar o filho por não terem mais tempo para fazer as coisas e acabam projetando seu fracasso nele.” Moreno diz ainda que é muito comum o pai revisitar sua relação com a família e encontrar situações que o afligem e o fazem questionar seu próprio papel de pai.

É possível evitar a depressão?

Evidentemente, a depressão não é algo que se possa evitar, mas os especialistas chamam a atenção para alguns comportamentos saudáveis durante a gravidez e o pós-parto. Acompanhar a mulher no pré-natal e discutir a paternidade com os amigos e familiares são algumas das estratégias para se sentir mais confortável com a chegada do bebê.

É importante que os profissionais que acompanham o casal, como o ginecologista e o pediatra, observem o comportamento do pai e reconheçam os sintomas. Como a atenção está muito voltada para a mãe e o bebê, o homem fica de lado em diversas situações, e a paternidade é tão difícil quando a maternidade.

É preciso ainda estarmos atentos para a relação do casal, entender que, quando nasce um filho, o casal muda completamente. É como se nascesse também uma nova mulher e um novo homem, que precisam se apaixonar novamente, dessa vez com a presença de uma terceira pessoa na história: o filho.

Uol Gravidez e Filhos

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