A experiência religiosa em muitos casos é marcada pela ruptura com a paz interior e conflitos com nosso círculo de convívio. A boa relação entre as religiões e a tolerância é apenas um ideal. Crescer em uma seita destrutiva ou abusiva pode ter várias consequências para a vida toda. Podem existir abusos físicos, emocionais e sexuais. Nestes grupos existe uma doutrinação de culpa e condenação eterna caso a pessoa não obedeça as regras. É induzida também a culpa sexual e restrições quanto ao lazer e convívio com pessoas de fora do grupo. É instilado o medo como forma de manter o “rebanho” coeso (fiéis são denominados de ‘ovelhas’). Quem é desde criança doutrinado em uma religião abusiva, vive aterrorizado com imagens de um inferno de fogo, Armagedom, demônios, pesadelos; desenvolve ataques de pânico, somatizações diversas (doenças de origem emocional), e diversas outras fobias. O medo e a ansiedade persistem na vida adulta e podem incapacitar um indivíduo para atividades simples para os demais, até mesmo quanto a decisões simples a fazer no dia-a-dia.

As temáticas relacionadas com espiritualidade, devem ser abordadas sob uma perspectiva mais abrangente, que implique o desenvolvimento duma consciência ampla, empática, inclusiva, aceitando as diferenças, incentivando a criatividade, a convivência, e troca de saberes para o crescimento coletivo. Através de uma Abordagem Integrativa, propomos avançar no processo de maturação emocional-espiritual, onde cada um de nós complementa o vazio do outro e da mesma forma, reduz as barreiras relacionais, para termos livre acesso uns aos outros em harmonia e linearidade. Desta forma, podemos resgatar o “melhor” de cada um, e utilizar este conteúdo para melhorar o meio em que vivemos. Fazemos parte da realidade que observamos, portanto temos autonomia para alterar esta realidade, criando uma órbita para promover a inteligência inter-relacional.

“Assinamos o nome de Deus sob nossos temores e angústias, fazendo dele autor de proibições sem conta, que não passam de proibições de nosso inconsciente diante das temidas pulsões. Aos nossos medos conferimos o estatuto de leis divinas; diante de nossos desejos mal contidos, situamos um Deus controlador; nosso narcisismo ferido criou um Deus suporte que busca garantir nosso absolutismo perdido; para assegurar a submissão a ideais obscuros, lançamos mão de um Deus exigente e nunca satisfeito. Deus fica asfixiado com nossas leis, se angustia com nossas exigências intransigentes, morre em nossas auto-agressões, sente-se manipulado em muitas das nossas motivações religiosas.
Um Deus de vida nos foi revelado, mas nossa culpa o foi convertendo em um Deus de morte. Seria muito importante libertar Deus da culpa para lhe devolver sua vida”.
Morano, 2003

Algumas Características de uma Seita Destrutiva

  • Uma seita demonstra extremo zelo para com seus líderes. Mesmo quando já estão mortos, são reverenciados. Encara seu sistema de crença, ideologia e práticas como a “verdade”, como lei;
  • Questionar, duvidar são atitudes desencorajadas e até mesmo punidas;
  • A liderança dita como os fiéis devem pensar, agir e sentir. Membros devem obter permissão para namorar, mudar de emprego, casar etc. Os líderes “prescrevem” o que devem vestir, comer, onde viver, com quem criam amizades, quando ter filhos, como discipliná-los;
  • As seitas são elitistas. Criam um status especial ao líder, sendo este um avatar;
  • Seitas têm uma polarizada mentalidade de “Nós X Eles”, causando conflitos com as pessoas que não fazem parte dela, e com a sociedade;
  • A liderança induz sentimentos de vergonha e/ou culpa, para influenciar e controlar os seus membros. Habitualmente isto é feito através da pressão do grupo e formas sutis de persuasão;
  • A subserviência aos líderes ou ao grupo requer que os membrosdiminuam e até cortem relações com família e amigos fora da seita, e que alterem seus objetivos pessoais e atividades na rotina e lazer;
  • A seita está preocupada em obter novos membros;
  • A seita está preocupada em fazer dinheiro;
  • É esperado que os membros devotem inúmeras horas do seu tempo em atividades relacionadas à seita;
  • Os membros são encorajados ou requer-se deles que vivam e/ou socializemapenas com outros membros da seita;
  • Os membros mais leais (“verdadeiros crentes”) sentem que não pode existir nenhuma vida fora do contexto da seita. Acreditam que não existe outro modo de vida correto, e é comum sentirem medo de represálias para com eles ou sua família, caso saiam da seita (ou apenas considerem sair).

Fonte: Take back your life – Recovering from Cults and Abusive Relationships  (Lalich, J.; Tobias, M. L., 2006, citados por Madaleno, A. 2018)