Violência doméstica é uma “epidemia escondida” no confinamento

Metade do mundo está em confinamento e o isolamento social é fundamental para combater a pandemia de covid-19, mas como fazê-lo quando se vive com um agressor? Como se proteger da ameaça que vem de uma das pessoas mais próximas? A quarentena é, para milhões de mulheres, uma armadilha invisível.

“Sabemos que os confinamentos são essenciais para suprimir a covid-19, mas podem encurralar as mulheres com parceiros abusivos”, escreveu António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas. “Para muitas mulheres, a ameaça é maior onde deviam estar mais seguras: nas suas próprias casas”, continuou, sublinhando em comunicado ser necessário um “aumento do investimento nos serviços online e das organizações da sociedade civil”. Que os governos “ponham a segurança das mulheres em primeiro lugar na resposta à pandemia”, pediu.

Os especialistas das Nações Unidas chamam à violência doméstica “a epidemia escondida” e as medidas de isolamento social vieram exacerbar as condições para a violência estrutural num espaço que deveria ser de segurança. Os números já eram assustadores antes da pandemia – 249 milhões de mulheres e raparigas dos 15 aos 49 anos foram vítimas de violência nos últimos 12 meses, diz a ONU – e subiram em tempos de confinamento. 

Em França, a violência doméstica aumentou 30%; na Argentina, os pedidos de ajuda subiram 25% e pelo menos seis mulheres foram assassinadas desde o início do confinamento; no Brasil aumentou entre 40% a 50%; no Chipre e em Singapura, as linhas de apoio registaram aumentos de 30% e 33%, respectivamente; no Reino Unido houve uma subida de 25% em linhas de apoio para agressores que querem ajuda para mudar de comportamento, mas com a organização não-governamental Refuge a registar um aumento de 700% de chamadas de vítimas num só dia. Também em Espanha houve um maior número de denúncias, na ordem dos 18%, e nos Estados Unidos de 35%, de acordo com a televisão NBC.

Relações de poder

“Quando as pessoas estão fechadas na mesma casa dia após dia, coisa a que não estão habituadas, acabam por se saturar e já não têm capacidade para gerir as suas emoções, e é esse essencialmente o problema”. O problema já vem muitas vezes de trás, e deve-se a relações de poder, pois as vítimas são pessoas que os agressores “consideram ter menos poder, serem submissas a si: mulheres, crianças e idosos”. 

A ansiedade, frustrações e pânico vividos com a pandemia, com os relatos diários do número de infectados e mortos, e a perspectiva de uma crise tão má ou pior que a Grande Depressão de 1929 são duas causas apontadas para o exacerbar da tensão e da violência doméstica. A Organização Internacional do Trabalho calcula que oito em dez trabalhadores vão ficar sem emprego e uma grande porção serão mulheres.

“Muitas mulheres têm perdido os empregos, o que as deixa dependentes dos parceiros. E isso é um dos principais passos para se tornarem vítimas”. Os agressores, continua, tentam tornar as vítimas dependentes nas mais pequenas coisas e, mais tarde, no evoluir das agressões que começam por ser psicológicas, podem até controlar as suas contas bancárias. A violência psicológica precede a maioria das vezes a física e sexual, que também não deixam de ter efeitos mentais.

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